Análise queer-teológica de Levítico 18:22: «Não te deitarás com varão, como se fosse mulher»
Por que na verdade se trata de uma proibição do incesto masculino, e não das relações entre pessoas do mesmo sexo.
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Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação (Lev. 18:22).
Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram abominação; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles (Lev. 20:13).
Levítico 18:22 é um versículo curto em torno do qual este artigo se constrói. Corresponde-lhe quase literalmente Levítico 20:13: este segundo versículo repete a formulação do primeiro e acrescenta a prescrição da pena de morte.
No corpus do Antigo Testamento, esses dois versículos ocupam um lugar quase isolado. Nos demais livros não há correspondências nem citações que os retomem.
A frase «Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação» é normalmente entendida como uma proibição das relações sexuais entre homens. Nessa leitura, o versículo é tratado como uma declaração inequívoca sobre a atitude de Deus em relação a tais práticas e serve de fundamento para proibir as relações entre pessoas do mesmo sexo.
Neste artigo, examinamos pesquisas bíblicas contemporâneas, incluindo os trabalhos de teólogos queer que propõem uma interpretação diferente. De acordo com essas abordagens, o texto não proíbe as relações entre pessoas do mesmo sexo em geral, mas o incesto entre homens dentro de uma mesma família. Essa conclusão é sustentada por uma análise filológica detalhada do original em hebraico antigo.
A quem o livro de Levítico se dirige
«Levítico» é um dos livros da Bíblia; seu título pode ser entendido como «o livro sobre os levitas».
Os levitas eram uma das tribos de Israel, da qual provinham os servidores do Templo. No entanto, o status de sumos sacerdotes não pertencia a todos os levitas, mas aos kohanim — os descendentes de Aarão. Somente eles tinham o direito de oferecer sacrifícios.
O livro era dirigido, em primeiro lugar, aos sacerdotes. Continha prescrições sobre a ordem sacrificial, regras de pureza ritual e disposições que definiam o permitido e o proibido no culto.
Disso se poderia concluir que a proibição de Lev. 18:22 não se aplica às pessoas de hoje, já que não pertencemos ao sacerdócio do antigo Israel. Mas esse argumento é fraco: o conhecimento do livro era prescrito a todo o povo de Israel, pois ele também fixava normas de conduta e distinguia o permitido do proibido.
Na tradição cristã, geralmente se considera que, após a vinda de Jesus Cristo, as prescrições cultuais levíticas perderam sua força obrigatória. Os sacrifícios de animais, as restrições alimentares — por exemplo, a proibição da carne de porco ou dos frutos do mar — e as purificações rituais estavam vinculados ao culto do Templo do antigo Israel e já não são considerados de observância literal.
Nos debates, faz-se referência também a Levítico 25, onde há disposições que permitem a escravidão. Esse fato serve de argumento contra a aplicação literal de Lev. 18:22 na atualidade: se parte das prescrições do Antigo Testamento, incluindo a permissão da escravidão, não é considerada obrigatória, então outras proibições tampouco precisam ser observadas.
Ao mesmo tempo, os mandamentos morais do livro — como as proibições do assassinato e do roubo, ou o mandamento «amarás o teu próximo como a ti mesmo» — são geralmente considerados no cristianismo como mantendo sua validade. No judaísmo, por outro lado, o Levítico continua a ser recebido como parte da Lei vigente em sua totalidade.
Interpretação tradicional: a proibição da «sodomia»
Na tradição ortodoxa, Levítico 18:22 é entendido como uma proibição incondicional da «sodomia» e de práticas afins. Aleksandr Lopúkhin, por exemplo, escreveu:
«A proibição das formas mais abomináveis do pecado carnal — a sodomia… é acompanhada da indicação de sua existência entre os cananeus, que receberão por isso o castigo segundo a justiça.»
A teologia católica adota uma posição semelhante. Nos documentos pontifícios, essa proibição é classificada entre as disposições morais da Lei, que conservam sua força obrigatória mesmo após a vinda de Jesus Cristo.
No meio protestante, não existe uma abordagem unificada. As avaliações divergem. Os apologistas contemporâneos, incluindo os cristãos LGBT, concentram-se com mais frequência não na mera existência de uma proibição no texto, mas no seu status: trata-se de uma prescrição ritual que, segundo o entendimento cristão, perdeu sua obrigatoriedade depois de Cristo, ou de uma norma moral que continua vigente?
Leituras queer-teológicas e afins
Na pesquisa contemporânea ligada à teologia queer, várias interpretações de Levítico 18:22 foram propostas. Entre elas, distinguem-se três abordagens, que diferem em método e argumentação.
O teólogo e professor Daniel A. Helminiak examina esse versículo sobretudo no seu contexto histórico-religioso. Ele vincula a proibição à tarefa de separar Israel das práticas cultuais dos povos vizinhos e ao sistema de pureza ritual.
Em The Expositor’s Bible Commentary («Comentário bíblico exegético»), analisa-se a gramática da fórmula e discute-se a possibilidade de um alcance mais restrito da proibição. O comentário cita a teoria do rabino Jacob Milgrom, segundo a qual o texto poderia referir-se a um caso específico de incesto.
A análise filológica mais aprofundada é oferecida por Renato Lings. Ele examina detalhadamente o vocabulário e a construção gramatical do versículo e conclui que Levítico 18:22 deve ser entendido como uma proibição do incesto masculino, e não como uma condenação universal das relações entre pessoas do mesmo sexo.
Cada uma dessas três abordagens é examinada separadamente a seguir.
A interpretação de Helminiak: a proibição como meio de separação de Israel dos cultos vizinhos
Helminiak parte de duas teses. Em primeiro lugar, a prescrição do Levítico dirige-se aos homens e não se estende às relações entre mulheres. Em segundo lugar, a proibição não se vincula a uma avaliação universal do comportamento sexual, mas a uma delimitação religiosa: os atos sexuais entre homens no Levítico funcionam como sinal de assimilação aos «pagãos» e de envolvimento em práticas cultuais «alheias». Nessa leitura, trata-se de uma forma de apostasia religiosa e de uma ruptura da fidelidade à Aliança.
Essa interpretação apoia-se na posição da proibição dentro do chamado Código de Santidade — um corpus de prescrições destinadas a manter Israel «santo», isto é, separado dos povos vizinhos. No início do capítulo 18, estabelece-se o enquadramento: não agir como no Egito e em Canaã, e não seguir seus estatutos. Segue-se uma enumeração de práticas associadas à religião cananeia e qualificadas como «abominações»: motivos de fertilidade, relações sexuais durante a menstruação, sacrifício de crianças a Moloque. Nesse contexto, a proibição dos atos sexuais entre homens integra a mesma série como mais um marcador do que é «alheio» e ritualmente inaceitável.
Helminiak ilustra essa lógica por meio de uma analogia. Um crente moderno poderia sentir repulsa por um «ritual satânico» com elementos sexuais — não por causa do ato sexual em si, mas porque a adoração se dirige ao «objeto errado». Segundo essa lógica, o Levítico condena antes de tudo a infidelidade religiosa, e não a prática sexual como categoria ética universal.
Daí ele extrai a conclusão da não comparabilidade das condições. Na maioria dos contextos contemporâneos, a relação sexual não faz parte de um rito religioso, razão pela qual os motivos da proibição antiga não coincidem com o que se discute hoje nos debates sobre a homossexualidade. Quando se cita o Levítico como resposta à pergunta «é ético ou não?», opera-se uma mudança de assunto: o texto, nessa leitura, regula as fronteiras da comunidade e a fidelidade à Aliança, e não formula uma teoria moral universal do comportamento sexual.
Um bloco argumental à parte diz respeito à palavra «abominação». Nas traduções, soa como um veredicto moral, mas no contexto do hebraico antigo está ligada ao sistema de pureza ritual. Em Lev. 20:25–26, o «abominável» aparece ao lado das proibições de se «contaminar» com animais e aves impuros. Nessa lógica, «abominação» funciona como uma variante do «impuro» e como uma violação das regras de pureza ritual. O mesmo princípio, segundo Helminiak, observa-se nas proibições alimentares, nas proibições de «mistura» — de sementes e fibras — e nos estados temporários de impureza associados à menstruação, à emissão seminal, ao parto e ao contato com a morte.
A lógica interna dessas proibições é difícil de reconstruir. A explicação «sanitária» não funciona, segundo Helminiak: não explica as proibições de mistura de tecidos e se ajusta mal às descrições de doenças de pele. Em Lev. 13:13, a pureza é correlacionada não com o contágio, mas com a integridade de um estado: a pessoa totalmente afetada é declarada pura.
Por isso, ele entende as categorias do «puro» e do «impuro» como elementos de um sistema ritual, e não como categorias propriamente éticas. As culturas contemporâneas também se apoiam em noções de «sujo» e «impróprio», mas com mais frequência são tabus sociais e reações aprendidas de repugnância. E a repugnância não é idêntica ao mal moral: o que parece «sujo» pode ser simplesmente incomum. Com o tempo, tais proibições passam a ser percebidas como «eternas» e até «divinas», embora tenham surgido como normas de um meio particular.
Nesse sentido, qualificar os atos sexuais entre homens como «abominação» significa, segundo Helminiak, atribuí-los à esfera da impureza ritual e do «alheio», e não afirmar que são «maus por natureza». Um argumento adicional ele vê na diferença entre os termos hebraicos. Em Lev. 18:22, a palavra usada é tō’evâ, que pode ser entendida como «impureza», «contaminação» ou «tabu», diferentemente de zimmâ, que designa o mal em si. Portanto, a ação é marcada aqui como um tabu e uma transgressão ritual, e não como um pecado ético no sentido universal.
Em apoio a essa leitura, Helminiak recorre à Septuaginta — a tradução grega antiga das Escrituras para os judeus de língua grega. Em Lev. 18:22, tō’evâ é traduzido por βδέλυγμα (bdélygma), um termo da mesma esfera de impureza ritual. Os tradutores poderiam, entretanto, ter escolhido ἀνομία (anomía), «iniquidade», uma palavra que na língua bíblica aparece onde se trata de violência ou injustiça manifesta. A escolha de βδέλυγμα é considerada por Helminiak como um argumento adicional em favor da leitura ritual. Para ele, isso indica que no judaísmo pré-cristão a proibição podia ser entendida não como a afirmação «isso é mau por natureza», mas como a indicação: «isso é impuro e está associado a cultos estrangeiros».
A conclusão final de Helminiak é que Lev. 18:22 proíbe os atos sexuais entre homens por suas implicações culturais e religiosas em um contexto histórico específico, e não formula uma ética sexual universal. Por isso, ele considera metodologicamente inadequado usar esse versículo como argumento no debate moral cristão contemporâneo sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo: o texto antigo e a controvérsia moderna referem-se a questões e contextos diferentes.
Mas mesmo aceitando essa interpretação histórico-religiosa, outras questões permanecem — questões que a comunidade LGBT dirige a Lev. 18:22. Por exemplo: como articular o Levítico com o Novo Testamento sem recorrer à citação seletiva?
O que escreve The Expositor’s Bible Commentary
The Expositor’s Bible Commentary (EBC) é uma importante série de comentários em vários volumes, em língua inglesa, dedicada aos livros do Antigo e do Novo Testamento. Ao analisar a proibição do Levítico, os autores do comentário concentram-se no vocabulário e no contexto do capítulo 18.
O EBC observa que a palavra habitualmente traduzida por «abominação» aparece seis vezes no Levítico, quatro delas concentradas no final do capítulo 18. Esse trecho descreve práticas qualificadas como «cananeias» e «contaminadoras da terra». Nesse contexto, os comentaristas consideram provável que os atos sexuais entre homens fossem percebidos como um elemento de um culto estrangeiro.
O comentário aborda também o contexto mais amplo do Oriente Próximo antigo. Segundo a avaliação do EBC, a homossexualidade raramente era proibida por lei no antigo Oriente Próximo, exceto em casos de violência. São mencionadas como exceção as Leis médio-assírias. Em outras regiões, na medida em que as fontes permitem julgar, tais práticas podiam ser toleradas e às vezes adquiriam até um status cultual.
Separadamente, o EBC examina a posição de Jacob Milgrom — biblista judeu e rabino especializado no Levítico e nas leis cultuais da Torá. Milgrom chama a atenção para detalhes gramaticais da formulação: a palavra «varão» está no singular, enquanto a expressão «como com mulher», que no original se lê «os deitar-se de uma mulher», aparece no plural.
Ele também sublinha a unicidade da fórmula controversa, habitualmente traduzida como «deitar-se como com uma mulher»: nessa forma exata, aparece apenas aqui. Ao mesmo tempo, a construção «deitar-se como com…» tem paralelos e aparece cinco vezes na Bíblia hebraica. Em quatro desses casos, a referência é ao leito como lugar, e a construção não designa necessariamente um ato sexual.
A partir disso, Milgrom propõe entender a expressão como uma referência a um «leito» ou «cama», isto é, como uma indicação de situação e contexto, e não como a descrição de um ato. Isso conduz a uma conclusão mais restrita: segundo Milgrom, o que se proíbe aqui é especificamente o incesto homossexual entre israelitas na terra de Israel.
Os argumentos de Renato Lings: análise filológica do texto hebraico antigo e problemas de tradução
Renato Lings, teólogo, tradutor e intérprete contemporâneo de textos bíblicos, defende em seus trabalhos a posição de que Lev. 18:22 e Lev. 20:13 não proíbem todas as relações entre pessoas do mesmo sexo, mas os vínculos incestuosos entre homens. Sua abordagem baseia-se no fato de que o vocabulário desses versículos é tão arcaico que, apesar de sua aparente simplicidade, não admitem uma tradução unívoca e exigem uma análise filológica detalhada.
Lings chama a atenção para o modo como o «masculino» é designado em Lev. 18:22. À primeira vista, seria de esperar a palavra hebraica habitual para «homem» — ‘īš. No entanto, o texto emprega o substantivo mais raro zākhār, cujo significado básico é traduzido como «macho» ou «ser masculino». Esse termo aplica-se tanto a seres humanos quanto a animais. No relato da criação, em Gên. 1:27, aparece ao lado do correspondente feminino neqēvâ, traduzido como «fêmea» ou «ser feminino». Para Lings, a substituição de ‘īš por zākhār é essencial, pois modifica a nuance do enunciado e pode, portanto, influir na interpretação.
Na tradição massorética, Lev. 18:22 é transmitido como duas cláusulas breves:
w’eth-zākhār lō’ tiškav miškevē ‘iššâ
Lings analisa essa expressão parte por parte. A partícula w- funciona de modo semelhante à conjunção «e». A sequência ’eth-zākhār inclui a partícula de objeto ’eth e o substantivo zākhār — «macho» ou «ser masculino». A partícula lō’ expressa a negação «não». A forma tiškav é traduzida como «te deitarás» ou «jazerás». Se a primeira parte for traduzida de forma consistente e literal, obtém-se aproximadamente: «E com um macho não te deitarás.» Até aqui, a sintaxe parece relativamente simples.
O que exatamente significa a expressão «como com mulher»?
Segundo Lings, a dificuldade central de Lev. 18:22 concentra-se na segunda parte do versículo — a expressão miškevē ‘iššâ. Pode ser traduzida como «os deitar-se de uma mulher», «os leitos de uma mulher» ou «os jazer de uma mulher». É precisamente essa construção que torna a frase sintaticamente opaca.
As traduções tradicionais costumam desdobrá-la em uma forma compreensível para o leitor moderno: «não te deites [com varão] como com mulher». Lings considera essa solução já interpretativa, pois a frase hebraica é mais curta e está construída de modo diferente.
Ele destaca duas observações gramaticais que, a seu ver, alteram o quadro.
A primeira diz respeito à ausência de partícula comparativa. No texto falta o prefixo esperado kě- com o significado de «como» ou «tal qual». Entre tiškav — «te deitarás», «jazerás» — e miškevē não há nenhum marcador gramatical de comparação. Por isso, a segunda parte dificilmente se lê como uma comparação: «como com mulher.» Tomada literalmente, miškevē aparece como complemento do verbo «deitar», o que produz uma estranheza sintática: o objeto da ação passam a ser os «deitar-se» em si mesmos.
A segunda observação refere-se à partícula de objeto ’eth. Ela está presente no início — junto à palavra zākhār, isto é, «macho» —, mas não se repete antes de ‘iššâ, «mulher». Para tornar a frase natural em uma língua moderna, as traduções costumam acrescentar um segundo «com» e, juntamente com ele, introduzem um «como». Com isso, preenchem lacunas semânticas que no texto original permanecem abertas.
Para Lings, a formação da palavra miškevē também é significativa. Trata-se de um substantivo derivado do verbo šākhav, que pode significar «deitar-se» e «ter relações sexuais». Com ‘iššâ, está no estado construto, formando um encadeamento do tipo «os deitar-se de uma mulher» ou «leitos femininos», e não uma construção comparativa («como com mulher») nem um simples sintagma preposicional («com mulher»).
Por isso, a tradução habitual «com varão não te deites como com mulher» reproduz mal, segundo Lings, a estrutura da frase hebraica. Na leitura literal, ela se apresenta mais como «e com um macho não te deites os deitar-se de uma mulher» ou, de forma ainda mais direta, «e com um macho não te deites leitos femininos».
A expressão miškevē ‘iššâ, que Lings traduz como «leitos femininos», não tem paralelos em outros textos bíblicos. Isso exige especial cautela na interpretação. A própria forma plural miškevē constitui uma dificuldade adicional. O singular miškav, «leito», é muito mais frequente, enquanto o plural dá literalmente «atos de deitar-se» ou «leitos» e parece ainda mais incomum por estar gramaticalmente ligado a ‘iššâ pela terminação -ē, formando uma cadeia construta rara.
Lings busca pistas em outras passagens da Escritura. Em Núm. 31:18 encontra-se a expressão miškav zākhār, empregada a respeito de mulheres que não conheceram o «deitar-se de varão». No contexto de normas rigorosas de sexualidade fora do casamento, essa fórmula pode ser entendida como referindo-se a moças que não haviam entrado em relações conjugais — isto é, uma expressão ligada ao tema da sexualidade legítima no âmbito do casamento.
O único exemplo do plural miškevē fora do Levítico que Lings aponta encontra-se em Gên. 49:4. Ali, Jacó repreende Rúben por sua relação com Bila, episódio narrado em Gên. 35:22. Nessa passagem, duas palavras diferentes aparecem lado a lado. O «leito» ou «estrado» físico é designado pelo singular yātsūa’, enquanto os «deitar-se» são expressos precisamente pelo plural miškevē. Isso permite supor que as duas formas não são inteiramente intercambiáveis. Uma das leituras que Lings considera é a seguinte: yātsūa’ nomeia o lugar do ato, enquanto o plural miškevē sublinha o caráter problemático da relação em si. Muitas traduções, observa ele, simplificam essa construção tratando miškevē como simples equivalente de miškav, apagando assim a diferença filológica.
A história de Rúben e Bila mostra por que essa distinção pode ser importante. Rúben era o filho primogênito de Jacó e Lia, um dos doze filhos. Bila era concubina de Jacó. No sentido moderno e cotidiano, a ligação entre eles não parece constituir incesto. No entanto, pelas normas antigas, ela se enquadrava nos tabus incestuosos como «relação sexual com a mulher do pai». Na lógica do antigo Israel, isso era descrito como se Rúben tivesse «descoberto a nudez de seu pai» por meio da mulher de seu pai.
Daí Lings extrai a conclusão: muitas traduções de Lev. 18:22 e Gên. 49:4 contornam a forma rara e difícil miškevē e se afastam de fato do princípio da lectio difficilior, segundo o qual a leitura mais difícil deve ser preferida. Nessa lógica, o sentido pode residir precisamente na dificuldade gramatical que a tradução tende a suavizar.
A hipótese de Lings sobre a proibição do incesto entre pessoas do mesmo sexo
O único exemplo extralevítico da forma miškevē aparece no contexto da ligação proibida de Rúben com Bila. Essa relação é classificada como incesto e correlacionada com as proibições correspondentes do Levítico. Nesse contexto, miškevē adquire o valor de um marcador que poderia vincular a proibição levítica ao tema dos tabus sexuais intrafamiliares.
Em todo o capítulo Lev. 18, a ênfase principal recai sobre as proibições dentro do grupo de parentesco. Por isso, a palavra ‘iššâ dentro deste capítulo pode ser provisoriamente entendida como «mulher da família». O capítulo enumera diversas relações proibidas, incluindo o casamento com duas irmãs, as relações sexuais durante a menstruação, a infidelidade e a bestialidade.
Para compreender a expressão miškevē ‘iššâ, a composição do capítulo também é importante. O bloco principal Lev. 18:6–17 descreve o incesto por meio da fórmula lěgalōth ’erwâ — «descobrir a nudez» — e introduz uma proibição geral das relações sexuais com os parentes mais próximos (18:6). Dado que miškevē ‘iššâ se situa na proximidade desse bloco, sua ligação com a temática do incesto, segundo essa lógica, não pode ser descartada.
Argumentos adicionais Lings extrai da comparação com Lev. 20. Esse capítulo é em grande parte paralelo a Lev. 18, mas está organizado de forma diferente: a cada transgressão corresponde uma punição, e a ordem dos temas muda sensivelmente. A proibição relacionada com a «semente» para Moloque, que em 18:21 aparece como um episódio isolado, torna-se o tema central em Lev. 20 (20:2–5). Tal reagrupamento convida a ler as mesmas proibições sob outro ângulo e talvez esclareça o sentido de miškevē ‘iššâ.
Em Lev. 20, o contexto de 20:13 é determinante. Os dois versículos imediatamente anteriores, 20:11–12, são dedicados ao incesto e prescrevem a pena de morte. Em 20:13, a mesma pena é atribuída aos homens envolvidos em miškevē ‘iššâ. Em seguida, após um breve bloco de sanções por outras transgressões, o tema do incesto retorna em 20:17 e 20:19–21.
Dessa composição depreende-se uma conclusão prudente: a certeza plena é aqui inatingível, mas a estrutura de Lev. 20 sustenta a hipótese de uma ligação entre miškevē ‘iššâ e o vocabulário com que o livro descreve as relações incestuosas.
Se se aceitam esses argumentos, Lev. 18:22 pode ser entendido como uma precisão ao interdito geral do incesto: ele se aplica em todas as direções. No momento em que 18:22 aparece, a maioria das combinações já foi enumerada e proibida, e miškevē ‘iššâ, nessa leitura, funciona como uma fórmula de generalização. As relações com um parente próximo do sexo masculino revelam-se tão proibidas quanto as relações incestuosas com parentes do sexo feminino enumeradas anteriormente.
Essa leitura é ainda reforçada pelo plural miškevē. Pode ser interpretado como uma alusão ao conjunto das relações «femininas» descritas em Lev. 18. Nesse caso, os atos sexuais passam a segundo plano, e o capítulo se lê como um catálogo de tipos de relações proibidas que os israelitas deviam evitar. Na mesma lógica se inserem a bestialidade — como escolha do parceiro errado — e a proibição relacionada com Moloque — como escolha do destinatário ou do procedimento errado na oferta da «semente».
Se essa interpretação estiver correta, pode-se compará-la parcialmente com normas de outras tradições jurídicas do Oriente Próximo antigo. Em particular, o parágrafo 189 das leis hititas prevê punição pelo ato sexual forçado de um homem com sua mãe, filha ou filho.
Balanço da argumentação de Lings e suas limitações
Se se aceitar que miškevē ‘iššâ está ligado ao incesto, surge uma questão prática: essa construção pode ser vertida em uma língua moderna compreensível sem destruir seu sentido? São propostas duas formulações de trabalho:
(a) «Não deves deitar-te com parentes próximos — sejam do sexo masculino ou feminino.»
(b) «Com um parente do sexo masculino, não deves manter as relações sexuais que são proibidas com parentes do sexo feminino.»
Surge a seguir outro problema que as interpretações tradicionais, no essencial, contornam.
A tradução habitual «como com mulher» soa de forma neutra e implica que «deitar-se com uma mulher» é em geral permitido. Mas isso se ajusta mal ao contexto de Lev. 18, onde nas proximidades figuram proibições do incesto heterossexual e de outras infrações sexuais cometidas justamente com mulheres. Nos capítulos 18 e 20, a menção de uma mulher aparece quase sempre dentro de uma fórmula proibitiva. O plural miškevē pode apontar não para um único modelo de comportamento, mas para um conjunto de configurações ilícitas — isto é, para as diversas formas de incesto heterossexual enumeradas anteriormente. Em outras palavras, o padrão «como com mulher» não se ajusta bem à tonalidade geral de advertência e proibição que marca o ritmo de ambos os capítulos.
Lev. 18:22 termina com as palavras tō’evā hī’ — «é abominação». Às vezes se conclui daí que as relações entre homens são aqui julgadas mais severamente do que outras transgressões. No entanto, o próprio texto oferece pouca base para tal hierarquia.
O capítulo 18 em seu conjunto traça uma fronteira de pureza em torno do círculo familiar, a fim de excluir o incesto e outros atos degradantes e destrutivos. Nesse contexto, tō’evâ em 18:22 apenas marca o ato ao lado de outras designações severas. Em 18:17 figura zimmâ — «depravação», «libertinagem» —, em 18:23 — tēvel, isto é, «mistura reprovável», «confusão». Mais adiante, em 18:26, todas as proibições do capítulo são resumidas pelo plural tō’evōth — «abominações» —, e nos versículos finais 18:26–27, 29–30, esse vocabulário funciona como um veredicto global sobre toda a enumeração.
Consequentemente, tō’evâ aparece aqui como uma categoria ampla e recorrente com a qual o legislador designa o caráter ilícito de todo o conjunto de atos de Lev. 18. Não há, portanto, razão para atribuir a essa palavra um grau especial de repugnância para um ponto mais do que para os outros. Neste contexto, funciona como uma etiqueta geral de um comportamento que afasta os homens e mulheres de Israel do caminho fixado por YHWH.
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A interpretação de Renato Lings permite ler Lev. 18:22 como um versículo inserido no texto com uma função precisa. Se os demais versículos de Lev. 18 e Lev. 20 proíbem principalmente as práticas heterossexuais incestuosas, então Lev. 18:22 pode ter sido acrescentado para que o incesto homossexual também fosse incluído nesse catálogo. Nessa leitura, o versículo aparece como um elemento lógico de uma série de fórmulas proibitivas dirigidas contra práticas sexuais transgressoras. O incesto revela-se proibido com qualquer parente próximo, independentemente do sexo.
O conjunto dos argumentos de Lings, Helminiak e outros pesquisadores dá razões para não considerar as interpretações homofóbicas de Lev. 18:22 como evidentes por si mesmas. Ao mesmo tempo, há outros trechos no corpus bíblico que também são interpretados como proibições das relações entre pessoas do mesmo sexo, inclusive no Novo Testamento. Sua análise será abordada em artigos separados.
Referências e fontes
- Лопухин А. П. Толковая библия. [Lopúkhin A. P. A Bíblia Explicada.]
- Longman Temper III, Garland David E. The Expositor’s Bible Commentary: 1 Genesis–Leviticus. 2008.
- Lings K. Renato. The «Lyings» of a Woman: Male-Male Incest in Leviticus 18.22?. 2009.
- Daniel A. Helminiak. What the Bible Really Says About Homosexuality. 1994.
🙏 Teologia Queer do Cristianismo
Introduction