Ivan Dmítriev, jovens favoritos e desejo homossexual nas fábulas «Os dois pombos» e «Os dois amigos»

Amigo de Karamzin e Derjávin, ministro da Justiça e autor de fábulas em que a amizade se transforma em amor entre homens.

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Ivan Dmítriev, jovens favoritos e desejo homossexual nas fábulas «Os dois pombos» e «Os dois amigos»

Ivan Ivánovitch Dmítriev entrou para a história como um notável poeta sentimentalista da passagem do século XVIII para o XIX e, ao mesmo tempo, como um homem de Estado que chegou ao cargo de ministro da Justiça sob Alexandre I. Nas biografias oficiais, aparece como um administrador rigoroso e racional. Ao mesmo tempo, fontes e a tradição memorialística indicam que jovens talentosos surgiam regularmente em seu círculo. Sua vida de solteiro, os rumores sobre a natureza de seus vínculos e a ausência de escândalos públicos compõem a imagem de um homem cuja biografia privada foi talvez deliberadamente protegida da publicidade, mas que ainda assim se deixa ler em testemunhos indiretos.

Dmítriev era também conhecido como homem de letras e tradutor, amplamente lido nos meios aristocráticos. Em suas traduções e adaptações, afastava-se frequentemente do texto original. O ano de 1795 é particularmente revelador: em duas fábulas de La Fontaine — «Os dois pombos» e «Os dois amigos» — Dmítriev, ao modificar o original, transformou de fato os enredos sobre «amizade» em obras com um subtexto homoerótico pronunciado. Os textos completos de ambas as fábulas encontram-se no final da página.

Biografia e contexto histórico

Ivan Ivánovitch Dmítriev pertencia à antiga família nobre dos Dmítriev, que fazia remontar sua origem aos príncipes de Smolensk. Sua mãe pertencia à influente e abastada família Bekétov. O futuro poeta nasceu em 21 de setembro de 1760 na propriedade paterna, na aldeia de Bogoródskoie, perto de Syzran. Recebeu sua educação inicial em casa, depois estudou vários anos em um internato particular em Simbirsk e em seguida continuou a formação sob a orientação do pai.

Entre as leituras de Dmítriev, destacavam-se especialmente as Aventuras do Marquês de G. de Prévost. Porém, o quinto e o sexto volumes em tradução não chegaram a Simbirsk, e Dmítriev recorreu ao original. A princípio lia em francês com o auxílio de um dicionário; depois foi adquirindo gradualmente domínio fluente da língua.

Sua juventude coincidiu com um período histórico conturbado. Durante a Revolta de Pugatchov, a família deixou a propriedade e mudou-se para Moscou. As dificuldades financeiras obrigaram o pai a colocar os filhos no serviço militar. Em 1772, Dmítriev foi inscrito como soldado raso no Regimento da Guarda Semiónovski. A Guarda era uma parte privilegiada do exército russo e desempenhava funções não apenas militares, mas também cortesãs. Mais tarde, o pai levou Dmítriev a São Petersburgo. Ali, ele concluiu a escola regimental e obteve seus primeiros postos de oficial.

O serviço de Dmítriev no Regimento Semiónovski ficou registrado nas memórias de seus contemporâneos. Filipp Víguel deixou o seguinte retrato:

«Quando, ao subir ao trono, Paulo nomeou seu herdeiro [Alexandre] chefe do Regimento Semiónovski, Ivan Ivánovitch Dmítriev era capitão nele. Sua beleza viril impressionou o jovem; seu espírito divertia e cativava os companheiros de armas, enquanto certa gravidade natural em sua presença refreava os arroubos excessivos de sua alegria: eles o apreciavam com respeitoso deleite.»

— F. F. Víguel, Memórias

O talento literário de Dmítriev manifestou-se cedo. Já em 1777, sob a influência do jornalista e editor Nikolai Nóvikov, começou a escrever versos, sobretudo satíricos. Mais tarde, destruiu parte dessas primeiras tentativas. Em 1783, Dmítriev conheceu Nikolai Karamzin, um parente distante; logo Karamzin tornou-se seu amigo íntimo.

No final da década de 1780, Dmítriev integrou-se nos círculos literários. Em 1790, aproximou-se de Gavrila Derjávin, conheceu o dramaturgo Denis Fonvízin e outros escritores. Em 1791, Karamzin publicou as obras maduras de Dmítriev no Jornal de Moscou. Entre elas estava a canção «Golubok» («Geme o pombinho cinzento»), que rapidamente se tornou popular e logo recebeu uma versão musical.

▶️ «Geme o pombinho cinzento» (YouTube)

A casa de Dmítriev tornou-se ponto de encontro de jovens autores. O fabulista iniciante Ivan Krylov frequentava-a. Dmítriev leu atentamente seus primeiros textos e indicou-lhe diretamente o caminho mais adequado, observando que as fábulas constituíam sua verdadeira vocação. A partir de então, Krylov trabalhou sistematicamente nesse gênero. Mais tarde, em 1809, Dmítriev conheceu o jovem Aleksandr Púchkin e contribuiu para sua admissão no Liceu de Tsárskoie Seló.

A carreira administrativa de Dmítriev também progrediu com sucesso. Em 1806, a convite do imperador Alexandre I, assumiu o cargo de senador. Em 1810, foi nomeado ministro da Justiça. Nesse posto, esforçou-se por ordenar o sistema judiciário: reduziu o número de instâncias e trabalhou para acelerar os processos. Seguia rigorosamente as normas do serviço e evitava intrigas palacianas, o que inevitavelmente gerou conflitos com funcionários influentes. Por fim, as queixas persistentes levaram à sua demissão, que Alexandre I aceitou com visível pesar.

Após deixar o serviço, Dmítriev fixou-se em Moscou, perto das Lagoas do Patriarca. Ali presidiu uma comissão de auxílio aos moradores afetados pelo incêndio de 1812. Por esse trabalho, recebeu o título de conselheiro privado efetivo e a Ordem de São Vladímir de primeira classe. Com isso, sua carreira estatal chegou efetivamente ao fim.

Os contemporâneos notavam nele uma singular combinação de rigor e do típico estilo de vida senhorial russo. O mesmo Víguel escreveu:

«Como em todo homem extraordinário, havia nele muitas contradições: tudo nele era medido, correto, asseado, até afetado, como num alemão; e, no entanto, seus hábitos e gostos eram inteiramente de um senhor russo (bárin, um nobre fundiário): o kvas, os pirojki e, acima de tudo, framboesas com creme eram seus prazeres. Também gostava de bufões, mas costumava destinar esse papel a versejadores pomposos. Muitos o consideravam egoísta porque era solteiro e parecia frio. Amava poucos, mas amava-os com ardor; aos demais sempre desejou o bem — que mais se pode exigir do coração humano?»

— F. F. Víguel, Memórias

Em seus últimos anos de vida, Dmítriev quase não saía de Moscou. Revisava suas obras iniciais e trabalhava em memórias intituladas Um olhar sobre a minha vida. Ivan Ivánovitch Dmítriev faleceu em Moscou em 15 de outubro de 1837. Foi sepultado no Cemitério do Mosteiro de Donskói.

«Retrato de I. I. Dmítriev», Dmítri Levítski, década de 1790.
«Retrato de I. I. Dmítriev», Dmítri Levítski, década de 1790.

A possível homossexualidade de Dmítriev

Na época de Alexandre I, a alta sociedade mantinha uma tolerância velada em relação a ligações entre pessoas do mesmo sexo. Publicamente não se falava nisso, mas em conversas privadas tais relações eram conhecidas. Os contemporâneos atribuíam, em particular, inclinações homossexuais a certos dignitários influentes, entre eles o príncipe Aleksandr Golítsyn, ministro dos Assuntos Espirituais.

Nos meios aristocráticos, as ligações entre pessoas do mesmo sexo entrelaçavam-se frequentemente com práticas de patronato. Grandes senhores promoviam jovens favoritos e apoiavam suas carreiras. A sociedade encarava isso com ironia, mas em geral evitava escândalos ruidosos. Pelos testemunhos dos contemporâneos, Dmítriev agia de maneira semelhante. Não se registraram conflitos abertos nem acusações oficiais ligadas a sua vida privada.

Segundo as memórias dos contemporâneos, durante o período em que esteve à frente do Ministério da Justiça, Dmítriev era cercado com mais frequência por colaboradores jovens e atraentes. O testemunho mais expressivo ficou de Víguel, ao descrever as primeiras semanas de Dmítriev no cargo:

«Não se passou um mês desde que Dmítriev foi nomeado ministro da Justiça e logo chegou a Petersburgo; e chegou não sozinho, mas trouxe consigo um séquito reduzido, porém seleto. Três jovens o acompanhavam — Milónov, Grammátik e Dachkov; os dois primeiros mal acabavam de ser poetas, e o último era o que desejasse ser.»

— F. F. Víguel, Memórias

Não se conservaram testemunhos diretos do próprio Dmítriev nem documentos que confirmem inequivocamente suas relações homossexuais. Contudo, as numerosas alusões indiretas dos contemporâneos permitem supor inclinações homoeróticas. Sabe-se também que Dmítriev nunca se casou.

Em outro episódio, Víguel relata uma história que mostra quão inverossímil parecia aos contemporâneos a ideia de um caso amoroso de Dmítriev com uma mulher:

«Dmítriev era amigo de Siéverin e mais ainda de sua esposa, muito mais inteligente e culta do que o marido. Daí concluíram que ele era seu amante e até lhe atribuíram direitos paternos sobre o filho que ela dera à luz, embora ela fosse corcunda e verdadeiramente feia. Isso era pura mentira, não calúnia: pois a ninguém ocorria condenar Dmítriev por tamanha façanha galante.»

— F. F. Víguel, Memórias

Esse episódio reflete uma convicção difundida entre os contemporâneos: os rumores sobre os romances de Dmítriev com homens soavam muito mais verossímeis do que qualquer suposição sobre relações suas com mulheres.

O desejo homossexual na poética de Dmítriev

A principal fonte de indícios indiretos sobre a possível homossexualidade de Dmítriev são seus próprios textos. Na maioria dos poemas, mantinha uma imagem exteriormente irrepreensível e seguia as normas da poética sentimentalista. Seu herói lírico ansiava em geral por uma dama do coração convencional, chamada geralmente Cloé ou Fílis. Isso não indica necessariamente hipocrisia: no início do século XIX, a vida dupla era vista como um fenômeno bastante corrente.

Naquela época, a literatura traduzida tornava-se frequentemente um meio de expressar o desejo homossexual reprimido. Membros da elite russa que dominavam o francês e o alemão podiam inserir significados pessoais em um texto formalmente alheio. A tradução permitia transmitir nuances semânticas e emocionais adicionais, permanecendo sob a proteção da obra original.

O professor de estudos da tradução Serguei Tiuliénev, em seu estudo A tradução como contrabando, comparou as traduções das fábulas de Dmítriev ao transporte clandestino de mercadoria proibida. Na superfície, tais textos parecem familiares e comedidos, mas contêm novos acentos de sentido ausentes do original estrangeiro. Nesses casos, o tradutor intervinha ativamente no material: redistribuía as entonações, alterava imagens e acrescentava sua própria atitude perante o que se desenrolava. Ao mesmo tempo, Dmítriev, nas palavras do pesquisador, como que permanecia na sombra. Sua participação não era indicada em parte alguma de forma direta, mas um leitor atento podia perceber a presença do autor na estilística e na escolha dos detalhes. Assim, a tradução tornava-se um invólucro que permitia ao poeta contornar a censura e as restrições sociais.

Um traço distintivo da poesia de Dmítriev é que o mundo de suas obras é quase inteiramente povoado por personagens masculinos. Isso é particularmente notável nos textos em que o autor é livre na escolha de seus heróis. Assim, na imitação intitulada «Golubok», composta a partir de motivos do poeta antigo Anacreonte — que escreveu, entre outras coisas, sobre o amor entre homens —, a escolha da fonte não parece fortuita. Nesse poema, o herói conversa com um pombinho, a quem chama de «belo» e «perfumado como uma rosa». A ave conta que Vênus a ofereceu a Anacreonte como recompensa por seus versos e que agora leva cartas do poeta a seu amado rapaz, Bátilo. O pombo confessa também que não deseja a liberdade que seu dono lhe oferece, preferindo permanecer a seu lado. A única figura feminina no texto — Vênus — funciona como símbolo mitológico abstrato do amor.

Outro exemplo é a adaptação de um fragmento do poema de Macpherson Amor e Amizade. Dmítriev retrata a amizade de dois jovens apaixonados pela mesma moça. Com o tempo, um deles pede ao outro que o mate, explicando que «viver assim» já não pode. No final, ambos os heróis morrem juntos. Sua «amizade» revela-se mais importante que o amor por uma mulher.

Apesar de uma imagem pública abertamente heterossexual, a obra de Dmítriev contém também dois textos que mais se aproximam de uma expressão relativamente direta de sentimentos. São suas adaptações de duas fábulas de La Fontaine — «Os dois pombos» e «Os dois amigos». Em La Fontaine, são histórias sobre amizade. Em Dmítriev, ganham um matiz homoerótico mais acentuado e tornam-se textos sobre o apego amoroso entre dois homens.

A fábula «Os dois pombos» com subtexto homoerótico

A fábula de Dmítriev «Os dois pombos» é uma tradução de «Les deux Pigeons» de Jean de La Fontaine. A figura do fabulista francês provavelmente evocava para Dmítriev a filosofia dos livres-pensadores, com sua busca pela liberdade e crítica das convenções sociais. Ao mesmo tempo, o nome de La Fontaine podia servir de cobertura segura, pois o autor francês já pertencia há muito ao cânone clássico.

A própria escolha do texto é reveladora. Dmítriev não traduzia todas as obras de La Fontaine, mas apenas algumas. Portanto, é significativo que tenha se voltado precisamente para essas duas fábulas. O enredo da primeira é o seguinte: no centro da história estão dois pombos que vivem juntos há muito tempo e são profundamente ligados um ao outro. Um deles se cansa da vida monótona e decide partir em viagem. O outro tenta retê-lo, teme a separação e possíveis infortúnios, mas em vão. Logo o viajante atravessa uma série de perigos: é surpreendido por uma tempestade, enreda-se numa rede, escapa por pouco de um falcão, machuca a asa e depois um menino lhe atira uma pedra. Exausto e quase inválido, o pombo finalmente volta para casa. A fábula termina com uma moral: as pessoas unidas pelo amor não devem buscar a felicidade em terras distantes, pois ao lado do ser amado cada instante vivido ganha já um novo sentido.

A tradução de Dmítriev aproxima-se em alguns trechos mais da imitação do que da reprodução literal. Ele amplia visivelmente o enredo, o que pode indicar o envolvimento pessoal do tradutor. La Fontaine tem 83 versos; Dmítriev chega a 106, e a versão russa inclui inúmeros detalhes acrescentados. Isso já se nota na abertura: em vez da frase concisa de que «dois pombos se amavam com terno amor», Dmítriev oferece uma descrição desenvolvida da vida em comum: «dois pombos eram amigos, viviam juntos há muito; e comiam, e bebiam».

A tonalidade também muda. No original, a censura é expressa pelo polido «vous» francês e pela palavra neutra «frère». No texto russo surge o mais íntimo «ty» (tratamento por «tu») e o diminutivo «brátets moi» (literalmente «meu querido irmãozinho»): «Oh, querido irmãozinho, como me feriste! É fácil viver separados?.. Para ti é fácil, cruel! Eu sei; ah! mas eu… eu, num pesar profundo, nem um dia sobreviverei…». As falas tornam-se mais longas e emocionalmente mais densas.

No conjunto, a versão russa soa mais expressiva do que o original. O francês imprudent voyageur — «viajante imprudente» — Dmítriev traduz como «louco» e «tramador». A cena de despedida também ganha outro matiz: em La Fontaine, os pombos choram e dizem um ao outro «adieu», ou seja, «adeus». Em Dmítriev, não proferem palavra alguma. Em vez de uma despedida formal, que se ajusta mal ao dramatismo do momento, os pássaros se olham, tocam-se com os bicos, suspiram e se separam.

A «linha feminina» merece atenção especial nesta história aparentemente toda masculina. Na fábula original, há um terceiro pombo macho, que o pombo viajante encontra junto a trigo derramado. Na versão de Dmítriev, essa personagem torna-se uma pomba fêmea. Em seguida, o viajante cai numa armadilha, e é precisamente a fêmea no campo que serve de isca. No texto russo, portanto, o papel da isca é desempenhado por uma personagem feminina. Isso suscita questões sobre as intenções do tradutor: quis ele tornar o episódio mais familiar ao leitor, ou expressou com essa substituição sua própria atitude em relação às personagens femininas?

Outra figura feminina surge como a amada do narrador. Ela é anônima e pertence a um tipo poético convencional, próximo de Cloé, Lisa, Vênus ou Fortuna de outros poemas de Dmítriev, onde se retrata um amor idílico, embora bastante insosso, entre homem e mulher. Nesse cenário, o par de dois pombos machos que vivem «juntos há muito» se destaca de modo especial. Sua história, por mais que se esconda sob a máscara da fábula, lê-se insistentemente como um romance terno e intensamente «humanizado».

A fábula «Os dois amigos»: a intimidade masculina idealizada

A fábula «Os dois amigos» é igualmente uma tradução de La Fontaine. No centro do enredo estão dois amigos tão estreitamente ligados que quase não se separam e, segundo o narrador, pensam continuamente na mesma coisa. Certo dia, um deles sonha que o companheiro está triste. Assustado, corre até ele no meio da noite para se certificar de que tudo vai bem. O amigo acordado julga que aconteceu uma desgraça real e imediatamente oferece qualquer tipo de ajuda: dinheiro, arma ou qualquer ação capaz de salvá-lo. Só então o primeiro confessa que não houve desgraça alguma: simplesmente tivera um sonho inquietante e, alarmado, correra para verificar se estava tudo bem.

A comparação do texto russo com o original francês mostra que Dmítriev intervém ativamente na narração: precisa detalhes e intensifica o tom emocional. Como resultado, a fábula adquire traços de um poema quase lírico.

Uma das mudanças mais notáveis é a eliminação da moldura de conto de fadas presente em La Fontaine. No texto francês, a ação se passa no país de Monomotapa — um cenário exótico fictício. Na versão de Dmítriev, esse nome desaparece. O tradutor limita-se a uma abertura vaga: «Há muito, muito tempo, em algum lugar viviam dois amigos…». A fábula deixa de remeter a um mundo convencionalmente distante e ganha caráter mais universal.

O tema da proximidade entre os heróis é desenvolvido por Dmítriev com mais amplitude do que por La Fontaine. No texto francês, está formulado de modo breve: «Tudo o que pertencia a um pertencia também ao outro; / os amigos daquele país, / dizem, valem mais que os do nosso.» Na tradução russa, essa ideia se transforma numa descrição extensa. Dmítriev escreve que os amigos «compartilhavam um mesmo pensamento, amavam a mesma coisa / e a toda hora / não tiravam os olhos um do outro; / sempre juntos; só a noite os separava; / mas não — mesmo à noite, alma falava com alma». Três versos de La Fontaine se convertem em cinco versos carregados de emoção.

Essa ampliação torna a imagem da amizade mais concreta e subjetiva. Em Dmítriev, a reciprocidade ultrapassa a proximidade cotidiana: o vínculo prossegue mesmo à noite, quando «alma fala com alma» no sonho. O tradutor elimina também o contraste estabelecido no original. La Fontaine opõe «aquele país» ao «nosso», sublinhando que uma amizade tão estreita é rara «entre nós». Dmítriev suprime essa oposição. Em vez de concluir que tal amizade é rara «em nosso país», ele se detém na vida compartilhada dos amigos e se concentra na imagem de uma amizade masculina ideal.

Ao mesmo tempo, Dmítriev elimina detalhes que considera supérfluos e torna o enredo mais dinâmico. Em sua versão desaparece a pergunta de La Fontaine: «Qual dos dois amava mais, que achas, leitor?». O foco se desloca para a reciprocidade dos sentimentos, e não para a comparação do grau de apego.

As mesmas mudanças são visíveis na moral. Em La Fontaine, ela é formulada em tom galante e cavalheiresco: «Que consolo ter um amigo verdadeiro; / ele busca tuas necessidades no fundo de teu coração; / poupa-te a vergonha / de revelá-las tu mesmo; / um pensamento, uma ninharia, qualquer coisa o alarma / quando se trata daquele que ama.» Dmítriev remove essa elegância estilística e torna a conclusão menos abstrata. Em vez de reflexões gerais sobre o «consolo», mostra o que um verdadeiro amigo faz concretamente, transmitindo-o por meio de padrões de comportamento reconhecíveis. O desfecho — «Um amigo no coração, um amigo na mente — e o mesmo amigo nos lábios!» — assume forma aforística. Dmítriev insiste na ideia da abertura total de um amigo em relação ao outro.

A emocionalidade de Dmítriev também é visível no nível da pontuação. Onde La Fontaine não emprega nenhum ponto de exclamação, a tradução russa contém seis. No texto francês predominam frases longas e pausadas. Em Dmítriev, sobretudo no episódio da visita noturna, surgem réplicas curtas, quase teatrais. Ele usa até uma frase inacabada para reforçar a impressão de fala natural. No texto russo, os personagens tratam-se por «tu», enquanto no original se utiliza o mais formal «vous».

Dmítriev altera também um detalhe aparentemente secundário, mas que influencia sensivelmente o tom geral da história. Em La Fontaine, o homem que acorda o amigo propõe três tipos de ajuda: dinheiro em caso de perdas no jogo, seu braço armado caso alguém o tenha ofendido, e uma bela escrava, supondo que o amigo sofra de solidão. Dmítriev mantém apenas as duas primeiras ofertas e suprime a terceira.

Assim, na tradução da fábula de La Fontaine, Dmítriev uma vez mais — de forma discreta, «como contrabando» — introduz sua própria visão de mundo no texto. Ele impregna uma obra originalmente desprovida de subtextos homossexuais com elementos de sua própria identidade sexual. Esses elementos não aparecem diretamente, mas por meio de pequenos deslocamentos, omissões e intensificações que, em conjunto, alteram sensivelmente a estrutura semântica e emocional da fábula.

***

A maioria dos estudiosos de história e literatura LGBT concorda que Dmítriev era muito provavelmente homossexual ou bissexual, embora nunca o tenha declarado publicamente. Por um lado, ocupava um alto cargo estatal e gozava de reconhecimento como homem de letras. Por outro, era obrigado a ocultar sua vida privada — algo que, em sua época, era em grande medida inevitável.

Exteriormente, Dmítriev seguia as normas estabelecidas. Contudo, segundo os pesquisadores, conseguiu deixar à posteridade uma espécie de «confissão cifrada», escondida em seus poemas traduzidos.

Uma avaliação geral de sua importância literária foi expressa por Filipp Víguel:

«Como poeta, ocupará sempre um lugar notável no Parnaso russo. Antes dele, a gente de sociedade e as mulheres não liam versos russos ou, se os liam, não os entendiam.»

— F. F. Víguel, Memórias

Os dois amigos

Há muito, já muito, dois amigos em algum lugar viviam,
Um mesmo pensamento tinham, a mesma coisa amavam,
E a toda hora
Não tiravam os olhos um do outro;
Sempre juntos; só a noite os separava;
Mas não — mesmo à noite, alma falava com alma.
Certa vez, a um deles veio um sonho terrível;
Num instante saiu de casa,
Corre aflito ao encontro do amigo
E o acorda. O outro salta da cama.
«Que serviço precisas? —
Disse, confuso. —
Tão cedo meu amigo nunca me acordou!
O que significa tua vinda? Perdeste nas cartas?
Aqui está todo o meu dinheiro! Alguém te ofendeu?
Aqui está minha espada! Corro — morrerei ou serás vingado!»
— «Não, não, obrigado; nem uma coisa nem outra, —
Respondeu o terno amigo, — fica em paz:
Um sonho maldito é o culpado de tudo!
Ao amanhecer sonhei que meu amigo estava triste,
E eu… fiquei tão perturbado com isso
Que acordei na hora
E vim correndo a ti, para sossegar o espírito.»

Que dom inestimável — um amigo sincero e de coração!
Ele procura todo meio de te servir:
Adivinha a tristeza, previne desgraças;
Um nada, um sonho, um vazio — e já se assusta por ti;
Um amigo no coração, um amigo na mente — e o mesmo amigo nos lábios!

<1795>

Os dois pombos

Dois Pombos eram amigos,
Havia muito viviam juntos,
E comiam, e bebiam.
Um se cansou de ver sempre o mesmo;
Decidiu ir passear e confiou-o ao outro.
Para aquele, a notícia foi como uma faca;
Estremeceu, chorou
E clamou ao amigo:
«Piedade, irmãozinho, como me feriste!
É fácil viver separados?.. Para ti é fácil, cruel!
Eu sei; ah! mas eu… eu, num pesar profundo,
Nem um dia sobreviverei… e além disso, pensa:
É esta a hora de partir em viagem?
Espera ao menos os zéfiros, meu pombinho!
Para quê a pressa? Ainda teremos tempo de nos separar!
Mal o corvo acabou de grasnar,
E sem dúvida — tenho um medo imenso! —
Previu alguma desgraça entre as aves,
E um coração em pena acredita ainda mais!
Quando eu me separar de ti,
Cada dia me ameaçará com uma desgraça:
Ora um gavião audaz, ora caçadores cruéis,
Ora milhafres, ora armadilhas —
Tudo o que é mau me virá à memória.
Ai de mim! — direi suspirando — chove!
Meu amigo estará bem? Não sofrerá de frio?
Não sentirá fome?
E o que não me passará pela cabeça então!»
Para tolos, a palavra sábia é como água num regato:
Murmura e passa ao lado.
O tramador ouve, suspira,
E ainda assim quer voar.
«Não, irmãozinho, seja! — disse ele. — Vou voar!
Mas crê que não te quero entristecer;
Não chores; passarão três dias e estarei de novo contigo
A bicar
E a arrulhar
Outra vez sob o mesmo telhado;
Começarei a contar-te pelas tardes —
Pois de qualquer modo tudo voltará à mesma cantiga —
O que vi, onde estive, o que foi bom, o que foi mau;
Direi: estive ali, vi tal maravilha,
E ali aconteceu-me isto,
E tu, meu amiguinho,
Ouvindo-me, ficarás tão sabido até ao verão
Como se tu mesmo tivesses andado pelo vasto mundo.
Adeus!» — Com estas palavras,
Em vez de todos os «ai!» e «ah!»
Os amigos olharam-se, tocaram-se com os bicos,
Suspiraram e separaram-se.
Um, de bico caído, sentou-se;
O outro bateu as asas, ergueu-se, voa, voa como uma seta.
E decerto, no seu ímpeto, teria voado até ao fim do mundo;
Mas de repente o céu cobriu-se de escuridão,
E direto nos olhos do viajante
Da nuvem despejou chuva torrencial, granizo, vendaval — numa palavra —
Com toda a sua comitiva, como é costume, a tempestade!
Em tal circunstância, perigosa embora não nova,
O pombinho depressa pousa num ramo
E ainda se alegra de ter apenas ficado encharcado.
A tempestade amansou, o pombinho secou-se
E retomou o caminho.
Voa e vê lá do alto
Painço espalhado e ao lado — uma pomba;
Pousa e num instante
Enreda-se numa rede; mas a rede era fraca,
Então armou-se com o bico contra ela;
Ora com o bico, ora puxando com a patinha, puxando, soltou-se
Da rede sem dano,
Perdendo apenas penas. Mas será isso uma desgraça?
Para cúmulo de pavor,
Surgiu de repente um Falcão e, com toda a força,
Atacou o coitado,
Que, como um criminoso em grilhões,
Arrastava atrás de si um cordel com restos da armadilha.
Mas por sorte, uma Águia de asas largas
Desceu das nuvens ao encontro do Falcão;
E assim, graças a uma confluência de ladrões,
Nosso viajante não se tornou presa do Falcão.
Porém ainda não se livrara da desventura;
Em pânico, perdido o juízo e a vista aguçada,
Bateu em cheio na beira de um telhado
E deslocou a asa; depois um rapazinho —
Via-se que entendia de pombos e não lhe faltava esperteza —
Por brincadeira atirou-lhe um seixo
E acertou-lhe de tal maneira que mal se ergueu;
Depois… depois, amaldiçoando a si mesmo, o destino, o caminho,
Decidiu arrastar-se de volta, meio morto, meio coxo;
E por fim chegou a casa como um aleijado,
Arrastando a asa e a perna.

Ó vós que o deus do amor uniu!
Quereis viajar? Esquecei o orgulhoso Nilo
E não vos afasteis além do riacho mais próximo.
Que admirar? Admirai-vos um ao outro!
Que cada um encontre no outro a toda hora
Um mundo belo e novo, sempre variado!
Haverá no amor sequer um instante em que o coração descanse?
O amor, acreditai, tudo substituirá para vós.
Eu mesmo amei: então, por um prado solitário,
Iluminado pela presença da minha amada,
Não teria querido palácios de mármore
Nem um reino nos céus!.. Voltareis,
Minutos de alegria, minutos de êxtase?
Ou viverei só de lembranças?
Acaso passou o tempo de tão doces encantamentos,
E é hora de eu deixar de amar?

<1795>

Referências e fontes
  • Baer B. J. Russian gay and lesbian literature. 2014. [Baer B. J. — Literatura gay e lésbica russa]
  • Дмитриев И. И. Басни («Два голубя», «Два друга»). 1800-е годы. [Dmítriev, I. I. — Fábulas («Os dois pombos», «Os dois amigos»). Década de 1800.]
  • Tyulenev S. Translation as Smuggling. 2010. [Tiuliénev S. — A tradução como contrabando]
  • Вигель Ф. Ф. Записки. 1864. [Víguel, F. F. — Memórias. 1864.]
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